O “LUTO” do Amor.

Praia Fernando Noronha, Brasil.

A transpiração transformara-se em poucos segundos num pequeno rio fruto de um imenso e torrante calor, exigia-se um refresco de preferência doce, mas principalmente que me refresca-se bem mais do que o corpo. Não se avistava um grão de humidade, era final de verão e inicío de outono e a vista até podia parecer um pouco mais do que encantadora, mas na altura pouco disso me passava pela cabeça.

Decidi-me por pegar na caneta também ela humedecida…

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Tinha o coração apertado, devia ser um nó, mas um nó cego, usei toda a minha força para o desapertar mas faltava-me mais do que força. Se calhar devia ter trocado a força pelo jeito, talvez fosse a solução, talvez tenha sido esse o meu pecado, porque continuo com um nó por desapertar.

Sentei-me, cruzei as pernas, toquei com as mãos no rosto, estavam suadas, tremiam bastante como incrivelmente sempre me tremem. Ouvi um toque de telemóvel, diferente do meu, mas muito familiar aos meus ouvidos, não fossem eles capazes de uma perspicácia que incomoda o meu cérebro. Foi uma pequena chamada de vinte minutos, não foram proferidas mais de uma dúzia de palavras, ao que os meus ouvidos quiseram ouvir, na realidade foram bem mais.

Eu sabia o nome que tinha ligado mesmo antes do telefone tocar, mas quis acreditar que não era nome nenhum, podia ser em privado. As chamadas multiplicam-se e o meu coração desmultiplica-se.

O amor é como um perfume, no inicio quer-se muito só aquele, cheira muito bem e faz-nos sentir acima, muito acima de tudo, depois começa a tornar-se banal que já nem notamos que ainda cheiramos e que o temos ainda em nós. Por fim, quando já muitas vezes saímos a rua com ele, passa a uma ilusão e acaba. Há depois quem guarde o frasco e quem o deite fora. Porém o amor não se compra como um perfume. Mas da mesma forma que um perfume se cria, o amor também, nasce de momentos espontâneos, multiplica-se por vontade das pessoas, floresce e valoriza quem o criou.

Quem não sente saudade do amor? Quem não sente saudades de um bom perfume a pairar no ar? Quem não sente saudades de estar apaixonado? E quem não sente saudade de ter aquela força que nos transforma e que nos faz ser capaz de empurrar uma montanha até ela se transformar numa planície? Todos sentimos. Todos queremos primaveras atrás de primaveras, mesmo sabendo que um dia mais tarde podemos ficar a desejar que todos os dias sejam inverno. Sim, nessa época em que os dias são pequenos e as noites enormes, em que ficamos deitados no silêncio do quarto a recordar aquele beijo, aquela vez em que não houve beijo e aquela outra vez em que afinal sempre foi um beijo. É como se pudéssemos estar mais protegidos, refugiados na escuridão, aconchegados pelo calor próprio, que em conjunto com mantas e cobertores são a única coisa que ainda nos aquece,  (o coração claro).

O amor é capaz de destruir aquilo que ele próprio constrói. É simples de contar, mas difícil de explicar e impossível de entender. Quem ama sabe que hoje ama, mas sabe que amanhã pode deixar morrer o amou, porque num horizonte longínquo acaba de nascer outra paixão. Matamos corações,  matamos vidas, matamos pessoas interiormente, deixando-as num mundo só delas, onde jamais vamos voltar a conseguir entrar. É a cobardia do amor. Faz florescer para depois matar sem dó nem piedade, e consegue fazê-lo sem ressentimentos. Consegue tão bem ter memória curta, repetindo anos a fim o mesmo crime, e não aprendendo acaba também por ser morto, mas mais do que um Cristo, ressuscita para voltar a cometer o crime.

Lá em cima as estrelas olham por isto e não dizem nada, limitam-se a acumular desejos dos crentes assassinados que perdidos em lágrimas pedem sonhos e fazem promessas de não voltar aquele local pelo mesmo motivo que os faz estar ali sentados naquele momento.

A distância acaba por nos afastar, acaba por nos fazer perder laços e afinidades, mas mesmo que muito seja ela conseguimos continuar a pedir desejos as estrelas que estão a uma distância impossível. O que importa é acreditar, o que importa no final de tudo é ter um telemóvel que permita que a distância se suprima facilmente.

O que importa é que sejam felizes. Quem? As estrelas que armazenam, sem nunca recusar, os nossos desejos. É o que lhes desejo, e ainda lhes prometo que muitos meus vão ser obrigadas a guardar.

O amor está de luto, eu estou de luto.

Mas e aquilo pelo qual eu luto?

Está de luto também.

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Cansei-me…

Estou exausto e quero é ir dormir. Não há mais sonhos para mim, só quero descansar, só quero que nunca, mais ninguém, me olhe nos olhos e me diga o que me vai na alma.

É mentira.

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