Transtorno no ritmo (Cardíaco).

O corpo humano é imperfeito.

Não se trata das imperfeições que ao longo do passar dos dias vamos acumulando por crueldade própria, incapacidade momentânea ou mesmo por desleixe dos outros. Trata-se de um irremediável defeito, potenciado pela mente durante o período em que existimos mas ineficazmente germinado ainda antes da concepção. É comparável e dá o mote para muitas situações “dia-a-dia”.

O coração.

Segundo o que a ciência escreveu sobre ele e no conceito mais básico do senso comum, o coração é um órgão muscular capaz de fazer irrigar de sangue todo o nosso organismo, permitindo movimentos, pensamentos e decisões. Portanto é a base unilateral do nosso viver. Temo-lo como o mais forte, como o ser superior, intocável e indispensável , o campeão que reside cá dentro. É então, não só, o “mais” de tudo, como é também o “mais (burro)” de tudo!

Ao serão dirigo-me com naturalidade ao café, pego no cigarro, fumo-o, pego noutro e fumo-o, penso no que penso, pego noutro cigarro, quebro a rotina e pego noutro cigarro. Felizmente o meu coração continua a ser burro e assim desejo que mantenha esta incapacidade capacitada. Não obstante da minha solidão, á minha volta decorrem actividades inúmeras, fruto da convivência daqueles que abandonam as esposas em frente aos seus vícios nocturnos. Essas mesmas que mais tarde, ou particularizando alguns casos, mais cedo, acabam por aquecer os corações dos esposos quando a hora de recolher chega.

Numa dessas noites assisti a um diálogo que me deixou alerta e cheio de irrequietude.

Pedro – O pombo quando caga fá-lo sem saber onde vai cair a caca, tu quando o fazes sabes bem que o estás a fazer.

André-  O quê? Chamas-te essa ideia para aqui porquê? Levas-te por tabela foi?

Pedro- Não. Tenho andado a pensar bastante desde que me aconselhas-te da outra vez quando estivemos a conversa. Sabes que tinhas razão? Ultimamente chego sempre a casa com mais uma mancha negra no casaco. Os pombos são bons amigos mas é só quando transportam mensagens correio, porque fora isso só servem para nos cagar em cima…

André- Tás parvo…

Pedro- Não! Acredita que tenho conseguido encontrar uma lógica tão coerente no meu raciocinio que neste momento perco-me em tentar acreditar que esta lógica é mais uma mentira. Não tenho capacidade para aguentar mais cagadelas, sempre tive um coração frágil.

André- Olha aí é que tens um problema para resolver…

Pedro- Não é um problema de todo. É uma forma de ser e agir. Consigas ou não, queiras ou não é assim que me vais ver nos anos que aí vêem, da mesma forma como me tens visto.

André- Epah…

Pedro- Espera, escuta e ouve-me.

André- Vá força, chuta lá o pensamento e pede mais duas.

Pedro- Não a bela sem se’não, e nós já várias vezes tinhamos chegado a conclusão que eu ia acabar desta forma, fizesse o que fizesse. Não é por ser ela, ou por não ser. Também não é por ser eu, ou tu. É por se tratar dele, entendes-me? Detesto que as pessoas tenham a coragem de serem capazes de se aproveitarem umas das outras. Cria-me um ódio de morte, irrita-me profundamente. Somos todos iguais, mas todos completamente alheios uns aos outros, cada qual com uma forma cativante muito própria, mas como se isso não bastasse temos de galgar o espaço do outro e roubar-lhe qualquer coisinha!

André- A que te referes, que agora fiquei estremunhado com tal delicadeza.

Pedro- A nada em concreto, mas a tudo de uma forma geral. E agora é que vais ficar estremunhado pela certa. Porque é que tu para conquistares alguém tens de te esforçar? Porque essa pessoa te cativou de determinada forma, ou melhor cativou o teu espaço interior, chegou e tocou no teu coração. E esta parte deixa-me mesmo extasiado. Tu quando levas pancada gostas? Tu quando levas chapadinhas ficas feliz e contente? E olha lá, tu quando és rejeitado viras as costas ou vais atrás? Dá-me lá respostas, e claro não aquilo que tu farias, mas sim aquilo que é natural que se faça.

André- Epah… Tu complicas muito o raciocínio e eu não sou tão astuto assim…

Pedro- Não engonhes e tira-me as minhas dúvidas.

André- Vá! Na boa da verdade acho que qualquer pessoa quando sofre uma rejeição a tendência é para sentir a tentação de fazer o possível para que isso não volte a suceder.

Pedro- Ou seja…

André- É fácil falar, ou melhor falar sem sentir. Tens sempre duas opções ou deixas num canto porque não tens força para o mover, ou então pedes ajuda para que consigas. Não é linear carago, o teu coração é que manda, se te tocam nele tás fudido.

Pedro- És um must! Era aí que queria que chegasses.  É o orgão mais falso que temos, não vivemos sem ele, têm força para nos por a mexer a torto e a direito, até com duas dúzias de copos em cima funciona, mas nestas merdas é um banana! Tá sempre a levar no focinho e mesmo assim não deixa de sentir, tratam-no desprezívelmente e o que é que ele manda? Nem é mandar, pior, é comandar. Acho que nem o teu amigalhote cardiologista me justifica esta.

André- Podes crer. Nem esse nem a tua amiga psicóloga. Por falar nisso qu’é dela?

Pedro- Olha perdeu-se, a mais de três meses que não diz nada, é que ela ainda me fazia o favorzinho.

André- Té tenho pena de ti!

Pedro- Deixa-te disso que sabes bem que por minha vontade já não era aqui que estava. Mas nesta casa manda outro que não eu!

André- Enfim, quando é que separam esta palavra e isto chega ao fim. Olha vamos é trincar qualquer coisa que já tenho mais cerveja no bucho que sei lá!

Pedro- Tá certo!

Moral da história: O coração é o único que por mais mal que lhe façam, vai continuar a bater e a gostar de bater na mesma.

 

 

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