Os teus pés estão frios.

(Gelados, diría.)

Março!
A chuva caía abundantemente de madrugada, mas ao nascer da manhã já se notavam os raios de sol timídos mas suficientemente quentes para que as flores do nosso jardim dessem a sua primeira aparição.
As andorinhas já se ouviam ao longe, pareciam querer chegar, vindas nãoseid’onde, cheias de um terrível encanto pelo amor às suas futuras gerações.

Andorinhas e flores anunciavam a chegada da primavera e anunciavam a minha septuagésima nona primavera. Todos os anos ouvia as andorinhas chegar, mas em nenhuma outra vez me apercebi que elas haviam cantado e dançado. Devia andar cego pelo teu olhar e surdo por causa da tua voz. Parecia que na tristeza da minha pouca audição ouvia a sua alegria, ouvia o amor que traziam nas suas asas, fazia-me parecer até que traziam felicidade para ti e para mim.

Por aquela altura tu já não te preocupavas mais com as andorinhas, aliás pouco mais querias saber do que do teu tricô e do rosmaninho que estava no centro do jardim. Foram mais de 2521 as vezes que duvidei do teu sentimento por aquela árvore minúscula. As nossas flores que me prometes-te serem sempre as mais bonitas deixas-te que morressem,  aquela árvore não, cuidavas dela todos os dias como se nos vinte anos antes nunca ninguém lhe tivesse deitado uma gota de água. Era demasíado estranho e intrigante para mim. A tua semelhança.

Mas eu gostava.

Hoje já era tarde, eu próprio já não acreditava mais que as flores iam mudar de cor. Estava tudo demasíado cinzento escuro. Juras-te fidelidade, amor, felicidade, carinho, respeito, compaixão e tantas coisas mais que a minha própria memória já não me permite lembrar. E eu jurei-te muito mais e em troca só pedi que estivesses lá todos os dias.

Suspeitei que tu própria não sabias bem o que é que andavas a fazer e o que querias. Ouvi noites sem fio as tuas conversas ao telefone. Não por me por a escutar, mas porque gritavas de tanto entusiamo e paixão que empregavas nas palavras. Era tão agridoce. Quantas vezes não deixas-te por descuido as cartas nos bolsos do teu casaco.

Lia nelas lágrimas de saudade e uma ausência presente exactamente cultivada pela distância.

Sempre soube.

Sempre soube (d)o que sentias.

Sempre soube o que tinhas vivido.

(No final de tudo tu eras simplesmente minha. No final de tudo tu estavas só comigo,e isso bastava-me. Havias me prometido até que se eu te fizesse feliz isso era o suficiente. Eu burro aceitei e não ripostei.)
Passaram agora quase 50 anos desde que te vi pela primeira vez.

Continua…

(Love the ride, not the end…)

 

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